domingo, 20 de novembro de 2011

O medo que move a vida

Sempre fui um apaixonado por Mia Couto. Para mim um dos maiores escritores que este mundo já viu. Não estou nem um pouco preocupado se alg achar heresia estar sobrepondo ele aos clássicos. Não me importo. Chorei quando li esse texto. Não pelas críticas às armas. Isso já é discurso comum, mas pela sutileza que ele apresenta a solução. Para não ter medo é necessário conhecer aqueles que chamamos de ELE. Simples? Afirmo que nossas almas não estão preparadas para tal. "O medo foi um dos meus primeiros mestres". Para fazer diferente, marquei em vermelho as partes que me tocaram. De saída minhas desculpas. Nada mais irritante do que viciar a leitura dos outros. Não deveria ter marcado o texto. No entanto o propósito do blog é oferecer aos leitores a minha visão daquilo que está posto ... enfim, minha metafísica. Segue texto.

" O medo foi um dos meus primeiros mestres.
Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.
Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.
Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.
Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.
Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão.
Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais grave dessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina.
O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas.
A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem:
Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. 
Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.
Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
 Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo estas:
ü  Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento?
ü  Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar?
ü  Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi?
ü  Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
                                                  
Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.  uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essa arma chama-se fome!

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome.

O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo facto simples de serem mulheres.

A nossa indignação porém é bem menor que o medo!

Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir raes. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.
Citarei Eduardo Galiano a cerca disto, que é o medo global, e dizer:

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe".

Muito obrigado!

sábado, 19 de novembro de 2011

Cine Magestic: Caçada aos politicamente incorretos !!!


Também já havia publicado esta no meu facebook no dia 25 de Outubro de 2011...
Poderia passar a noite relacionando filmes focados nos triângulos amorosos. Cenários, épocas, personagens e casualidades são as mais diversas. Admite-se cenas picantes para os pseudolibertários, um jovem casal lá com um belo par de olhos e dentes perfeitos para os adolescentes apaixonados, a introspecção e diálogos expansivos do cine nouveau dos “filmes de autor” (...) Cada um ...com suas particularidades, mas todos iguais em um aspecto. O corolário da luxúria é quase sempre um (a) parceiro (a) bestializado. Um néscio, um narciso, arrogantes e inconspícuos. Ora escravos do trabalho, outras péssimos amantes, ali conservadores, horrendos, sujos. Por fim, merecedores do destino atroz proferido por seus/suas algozes ex-amantes. Por que quem é traído deve, necessariamente ser o Judas? A resposta é simples. Chegamos ao nosso limite moral. Poucos se arriscam nessa empreitada. Largar o mocinho por um desejo carnal? Nunca!!! Haverá ele (a) de ser demonializado antes do ato. Haverá ainda de ser purificado o próprio ato. Padres sem batinas, assim que esses cineastas devem ser rotulados. Na história real são os (as) escrotos (as), perniciosos e austeros que nos fascinam. Pois aquela alma que nos domina é mais forte e nos transporta a reboque pelo seu caminho da imortalidade. Da vida que somos tão desejosos. Poucos são os filmes que se arriscaram nessa seara (excluindo os pornôs). Poucas são as Ninas do Drácula de Bram Stoker, As Lucys de Beleza Roubada do corajoso Bertolucci com velhos moribundos ardendo por uma ninfeta, e as Teresinhas de Chico. Oxalá aquelas por quem sofri de amores não tenham partido por ser eu um anti-herói, parco de virtudes como esses comedores de macarrão de “cartas para Julieta”!!!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Pato


Já publiquei esta no meu Face dia 13 de outubro. + acho que vale ficar no Blog !
Um bom amigo comentou algo e instantaneamente me senti representado. Faço minhas as palavras dele.
_ Se necessário fosse escolher um animal para me definir, não há dúvidas que seria um PATO. Esta criatura é dotada de todas as críticas estratégias biológicas de motilidade. Algo vital para sobrevivência na vida selvagem. Um pato sabe andar, um pato sabe voar, um pato sabe nada...r (...) mas nenhuma das três coisas ele sabe fazer direito !!!! Sou exatamente assim. Tenho um emprego que curto + sinto que poderia ter estudado mais; adoro tocar violão + longe de ser um virtuose; até que não sou lá de todo feio + tampouco e tão pouco impressiono; curto vinho e não os conheço, sem aptidão à sommelier; cantor barzista; a verborragia do meu inglês; leitor de parcos livros; rodeado de verdadeiros amigos + sou pouco carismático. No fundo gosto desse meu jeito sem jeito; se meter em qualquer conversa sem saber oq dizer, discutir pentatônicas e não saber solar. Deixo a genialidades para aqueles que desejam a imortalidade. Fico satisfeito em ser terceiro. Conhecer de tudo um pouco e de nada muito. É como ir degustando um menu de cheiros, gostos, toques e sons sem mais precisar o que e onde, sem ajudar a reinventar. Para mim, abrir essas portinholas sem entrar é viver em eterna exclamação. Ohhhh...quantas coisas bonitas seria capaz de lograr !!! Ao menos eu sei disso.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre nossos antepassados

 (Conto de Marcelino Freire publicado no livro BaléRalé)

“Sabe o Homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia, enrolado, perto das colinas calcáreas da Prússia? O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca, sabe o homem que encontraram? Com seu machado de pedra, o homem que tinha cabeleira intacta, a arcada dentária, o homem meio macaco, funerário, fossilizado na encosta que o engoliu, você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil, o homem vestígio,o homem engolido pela terra primitiva, da  era quaternária, secundária, que caçava avestruz sem plumas, caçava o cervo turfeiras, javali e mastodonte, ia aos mares fisgar celacanto, inimigo de rinoceronte, sabe deste homem? Irmão do homem de Piltdown, primo do homem de Neandertal, do velho Cro-Magnon, do homem de Mauer, dos Incas, até dos filhos do sol? Das tribos da Guiné? O homem de 100 mil anos antes de nossa era, homem com mandíbula de chimpanzé, parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo, um mistério maior que este mistério... Navegador de jacaré, Não sabe? Homem desenterrado pelos viajantes por acaso, pela Paleontologia, não sabe? Ressuscitado o homem de ossos miúdos,  esmiuçados, abertos para estudo,  à visitação nos museus americanos, como uma múmia sem roupa, quase! flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico, o homem embrionário, das origens cavernosas da humanidade, sabe este Homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha, mesolítico, nômade, perdido ! este homem dava o cu para outros homens... E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso!”

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As vivências de Lunar Mare


The dark side of the moon - Da vez primeira que me senti infeliz foi igualzinho a todas as outras. Não resolveram os votos de superação. A tal volta por cima que nos ensinam as sábias vivências dos sempre sorridentes escritores de auto-ajuda. Funcionou mesmo foi saber que os fortes também já chafurdaram nas mesmas lamas. Egoista, mesquinho, tacanho, invejoso. Com certo incômodo esse sou eu. Vejamos a psicanálise com as indicações das terapias em grupo, as reuniões dos dependentes anônimos. Que fortes e funcionais remédios !!!! É do homem regozijar na decrepitude das alheias virtudes. Pensar assim me deixou menos sozinho. Ai, nossa !!! voltei ao ponto de partida. É tudo um círculo vicioso. Egoista, mesquinho, tacanho, invejoso.
The blue color of the sea – Da vez primeira que me senti feliz foi diferente de todas as outras. Não resolveram as juras que seria eterno. Ter-se-ia acertado falar em imortal. Eis a diferença entre o bem e o mal. A dor é um ciclo que se completa. Uma cicatriz bem no rosto e de teimoso acredito que todos contemplam minha feiura. Por vez, a felicidade vem caprichosa e necessariamente acompanhada do desejo. Ahhh!!!! Aquela sobremesa que comi em outras terras (...) Encantar-se com paisagens (...) O exato sabor da boca, calor e cheiro na pele amada. Não me tornei pleno com o que se foi. Certamente hei de querer mais e mais uma vez mais.
Lunar mare – Nome dado as manchas escuras que se apresentam na lua. Referências a antiga crença que eram elas os oceanos de nosso satélite. Ainda prefiro acreditar que são. Dois membros de um deus que por vezes se articulam no horizonte. Minha ligação com os dois é transcendental. Até ai nada diferente do que diria qualquer cidadão litorâneo. Mas é a única felicidade na minha vida que posso dizer ser onipotente, onipresente e onisciente. As demais já me faltaram ou faltarão. Nos scraps com seus belos aforismas e os albuns de amigos parece haver um brilho místico. Mesmo em minhas postagem por certas horas me estranho. Este blog é sobre o ato de extrema coragem de invadir minha privacidade, de tomar pública a percepção do que está a minha volta. Provavelmente só seja interessante para mim. Uma espécie de Peter Falk na obra de Wim Wenders.