(Conto de Marcelino Freire publicado no livro BaléRalé)
“Sabe o Homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia, enrolado, perto das colinas calcáreas da Prússia? O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca, sabe o homem que encontraram? Com seu machado de pedra, o homem que tinha cabeleira intacta, a arcada dentária, o homem meio macaco, funerário, fossilizado na encosta que o engoliu, você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil, o homem vestígio,o homem engolido pela terra primitiva, da era quaternária, secundária, que caçava avestruz sem plumas, caçava o cervo turfeiras, javali e mastodonte, ia aos mares fisgar celacanto, inimigo de rinoceronte, sabe deste homem? Irmão do homem de Piltdown, primo do homem de Neandertal, do velho Cro-Magnon, do homem de Mauer, dos Incas, até dos filhos do sol? Das tribos da Guiné? O homem de 100 mil anos antes de nossa era, homem com mandíbula de chimpanzé, parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo, um mistério maior que este mistério... Navegador de jacaré, Não sabe? Homem desenterrado pelos viajantes por acaso, pela Paleontologia, não sabe? Ressuscitado o homem de ossos miúdos, esmiuçados, abertos para estudo, à visitação nos museus americanos, como uma múmia sem roupa, quase! flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico, o homem embrionário, das origens cavernosas da humanidade, sabe este Homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha, mesolítico, nômade, perdido ! este homem dava o cu para outros homens... E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso!”

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